Empresta-me aquela palavra,
por favor?
Estava mais um dia de
serviço quando fiz uma pausa para um café e acendi um cigarro. Em seguida, um colega
se aproxima e pede emprestado o isqueiro, que logo após ter acendido teu
cigarro, devolve-o. Algo simples do cotidiano, caso não observamos com mais
detalhes, pode passar despercebido. No caso do meu empréstimo do isqueiro ao
meu colega: e se eu não empresto? Provavelmente ele teria que sair para comprar
um isqueiro, consequentemente perderia um tempo que foi economizado para sanar
o problema que ele tinha no momento.
E quando nós deparamos em
uma situação envolvendo a comunicação escrita ou oral e nos encontramos que há
necessidade de pegarmos emprestado uma palavra para concluirmos o raciocínio,
mas não nos permite? O que fazer? Parar a conversa e ir “comprar” uma palavra?
Sei que na linguística não é bem assim que funciona (comprar palavras de outras
línguas e que há todo um processo por trás disso).
O
empréstimo linguístico não é recente, mas ficou mais perceptível com o avanço
da tecnologia. Mais precisamente a internet.
Palavras
como blog e tuitar talvez não existiriam caso não fosse criado a internet, pois
elas são genuínas da internet. A palavra tuitar significar fazer uma publicação
na rede social Twitter. Caso não houvesse o empréstimo linguístico, qual seria
a palavra para tal ação? Publicar? Ficaria muito vago, porque o verbo publicar
é transitivo (exige complementação). Então, usaríamos uma frase? Publicar no Twitter?
Talvez sim. Mas o vocábulo tuitar, além de ser mais curto, representa muito
mais ação. Logo, usando o empréstimo linguístico conseguimos expressar de forma
mais dinâmica e direta algumas ações do cotidiano contemporâneo.
Com
o passar dos anos, talvez meus bisnetos terão algumas palavras que surgiram com
a internet como se fossem genuínas da língua portuguesa. Palavras tais como:
blogue (segundo o dicionário Houaiss, é uma página pessoal ou coletiva na
internet a qual os usuários utilizam para publicar algo de seus interesses e
interagirem-se), bug (segundo o dicionário Houaiss, algum erro ou falha em um
código de programa), deletar (segundo o dicionário Houaiss, excluir algo) entre
outras que já existem e outras que estão por vir.
Há
pessoas que defendam que não deva existir o empréstimo linguístico. Elas
acreditam que utilizar palavras de outras línguas desvaloriza a língua
portuguesa. Inclusive já houve um projeto de lei que tornaria o uso de palavras
de língua estrangeira proibida. Projeto de lei número 1.676 de 1999. O referido
projeto de lei estabelece como referência a Academia Brasileira de Letras como
base para o uso das palavras. Esse projeto de lei objetivava a proteção da
língua portuguesa e sua valorização. Um dos itens abordados era o incentivo na
educação. Eu concordo que devemos proteger a nossa língua e fomentar o teu
devido uso. Nesse caso nota-se que haveria uma divisão: palavras incorporadas
até aquela lei faria parte da nossa língua e as outras que surgiriam após
ficariam de fora. Até que o autor da proposta foi sensato em estabelecer uma
divisão temporal, pois se determinasse apenas palavras originalmente nacionais
poderiam ser usadas, talvez voltaríamos a nos comunicar como homens das
cavernas – fazendo uso apenas de imagens.
Um
exemplo de como esse projeto de lei seria prejudicial seria em uma agência de
publicidade. Existem várias escolas de idiomas. Como ficaria a publicidade
dessas escolas caso não fosse possível o uso de uma língua estrangeira no nosso
país? Sim, há alternativas para essa questão. Porém restringira o processo criativos
dos diretores de criação; assim poderia causar uma restrição no conteúdo da
mensagem/do anúncio.
Como
ficaria nossos profissionais da área de informática sem poder usar bit ou byte?
Haveria uma gambiarra linguística para sanar essa lacuna.
Logo,
a língua é dinâmica e mutável. Ela se adapta com o passar do tempo.
Incorporando novos vocábulos, alterando os significados de algumas já
existente. Querer travar essa evolução é entrar em briga perdida contra a
natureza. E há conflitos que não existe a menor possibilidade de se vencer. Assim,
devemos agir naturalmente quando surge alguma palavra. Se essa for para
incorporar no sistema, será de forma natural. Não precisa forçar. Caso do
contrário também. Palavras vão e vem, como emprestar um isqueiro para o amigo
que não te devolve.
Excelente artigo!
ResponderExcluirParabéns
👏👏👏
ResponderExcluir