quinta-feira, 10 de outubro de 2019


Empresta-me aquela palavra, por favor?

Estava mais um dia de serviço quando fiz uma pausa para um café e acendi um cigarro. Em seguida, um colega se aproxima e pede emprestado o isqueiro, que logo após ter acendido teu cigarro, devolve-o. Algo simples do cotidiano, caso não observamos com mais detalhes, pode passar despercebido. No caso do meu empréstimo do isqueiro ao meu colega: e se eu não empresto? Provavelmente ele teria que sair para comprar um isqueiro, consequentemente perderia um tempo que foi economizado para sanar o problema que ele tinha no momento.
E quando nós deparamos em uma situação envolvendo a comunicação escrita ou oral e nos encontramos que há necessidade de pegarmos emprestado uma palavra para concluirmos o raciocínio, mas não nos permite? O que fazer? Parar a conversa e ir “comprar” uma palavra? Sei que na linguística não é bem assim que funciona (comprar palavras de outras línguas e que há todo um processo por trás disso).
          O empréstimo linguístico não é recente, mas ficou mais perceptível com o avanço da tecnologia. Mais precisamente a internet.
          Palavras como blog e tuitar talvez não existiriam caso não fosse criado a internet, pois elas são genuínas da internet. A palavra tuitar significar fazer uma publicação na rede social Twitter. Caso não houvesse o empréstimo linguístico, qual seria a palavra para tal ação? Publicar? Ficaria muito vago, porque o verbo publicar é transitivo (exige complementação). Então, usaríamos uma frase? Publicar no Twitter? Talvez sim. Mas o vocábulo tuitar, além de ser mais curto, representa muito mais ação. Logo, usando o empréstimo linguístico conseguimos expressar de forma mais dinâmica e direta algumas ações do cotidiano contemporâneo.
          Com o passar dos anos, talvez meus bisnetos terão algumas palavras que surgiram com a internet como se fossem genuínas da língua portuguesa. Palavras tais como: blogue (segundo o dicionário Houaiss, é uma página pessoal ou coletiva na internet a qual os usuários utilizam para publicar algo de seus interesses e interagirem-se), bug (segundo o dicionário Houaiss, algum erro ou falha em um código de programa), deletar (segundo o dicionário Houaiss, excluir algo) entre outras que já existem e outras que estão por vir.
      Há pessoas que defendam que não deva existir o empréstimo linguístico. Elas acreditam que utilizar palavras de outras línguas desvaloriza a língua portuguesa. Inclusive já houve um projeto de lei que tornaria o uso de palavras de língua estrangeira proibida. Projeto de lei número 1.676 de 1999. O referido projeto de lei estabelece como referência a Academia Brasileira de Letras como base para o uso das palavras. Esse projeto de lei objetivava a proteção da língua portuguesa e sua valorização. Um dos itens abordados era o incentivo na educação. Eu concordo que devemos proteger a nossa língua e fomentar o teu devido uso. Nesse caso nota-se que haveria uma divisão: palavras incorporadas até aquela lei faria parte da nossa língua e as outras que surgiriam após ficariam de fora. Até que o autor da proposta foi sensato em estabelecer uma divisão temporal, pois se determinasse apenas palavras originalmente nacionais poderiam ser usadas, talvez voltaríamos a nos comunicar como homens das cavernas – fazendo uso apenas de imagens.
          Um exemplo de como esse projeto de lei seria prejudicial seria em uma agência de publicidade. Existem várias escolas de idiomas. Como ficaria a publicidade dessas escolas caso não fosse possível o uso de uma língua estrangeira no nosso país? Sim, há alternativas para essa questão. Porém restringira o processo criativos dos diretores de criação; assim poderia causar uma restrição no conteúdo da mensagem/do anúncio.
          Como ficaria nossos profissionais da área de informática sem poder usar bit ou byte? Haveria uma gambiarra linguística para sanar essa lacuna.
     Logo, a língua é dinâmica e mutável. Ela se adapta com o passar do tempo. Incorporando novos vocábulos, alterando os significados de algumas já existente. Querer travar essa evolução é entrar em briga perdida contra a natureza. E há conflitos que não existe a menor possibilidade de se vencer. Assim, devemos agir naturalmente quando surge alguma palavra. Se essa for para incorporar no sistema, será de forma natural. Não precisa forçar. Caso do contrário também. Palavras vão e vem, como emprestar um isqueiro para o amigo que não te devolve.

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